Hoje fui à livraria com a minha irmã, e de presente de aniversário adiantado (faço dia 25/04) ela me deu um valor para comprar livros. Comprei/ganhei então dois fabulosos livros que eu sempre quis ter: "Humano, Demasiado Humano" de Friedrich Nietzsche e "Fausto", de Goethe. Comecei a ler o prólogo do Humano, Demasiado Humano e já quero furar fila dos outros que tenho pra ler só para ler ele primeiro... rsrs... Por que? bem... Veja um trecho. Me caiu como uma luva, exatamente como a fase na qual eu flutuo atualmente. E digo mais: I Want it All, and I want it NOW!
(...)A grande liberação, para aqueles atados dessa forma, vem súbita como um tremor de terra: a jovem alma é sacudida, arrebatada, arrancada de um golpe - ela própria não entende o que se passa. Um ímpeto ou impulso a governa e domina; uma vontade, um anseio se agita, de ir adiante, aonde for, a todo custo; uma veemente e perigosa curiosidade por um mundo indescoberto flameja e lhe inflama os sentidos. "Melhor morrer do que viver aqui" - é o que diz a voz e sedução imperiosa: e esse "aqui", esse "em casa" é tudo o que ela amara até então! Um súbito horror e suspeita daquilo que amava, um clarão de desprezo pelo que chamava "dever", um rebelde, arbitrário, vulcânico anseio de viagem, de exílio, afastamento, esfriamento, enregelamento, sobriedade, um ódio ao amor, talvez um gesto e olhar profanador para trás, para onde até então amava e adorava, talvez um rubor de vergonha pelo que acabava de fazer, e ao mesmo tempo uma alegria por fazê-lo, um ébrio, íntimo, alegre tremor, no qual se revela uma vitória - uma vitória? sobre o quê? sobre quem? enigmática, plena de questões, questionável, mas a primeira vitória: - tais coisas ruins e penosas pertencem à história da grande liberação. Ela é simultaneamente uma doença que pode destruir o homem, essa primeira erupção de vontade e força de autodeterminação, de determinação própria dos valores, essa vontade de livre, vontade: e quanta doença não se exprime nos selvagens experimentos e excentricidades com que o liberado, o desprendido, procura demonstrar seu domínio sobre as coisas! Ele vagueia cruel, com avidez insaciada; o que ele captura, tem de pagar a perigosa tensão do seu orgulho; ele dilacera o que o atrai. Com riso maldoso ele revolve o que encontra encoberto, poupado por algum pudor: experimenta como se mostram as coisas, quando são reviradas. Há capricho e prazer no capricho, se ele dirige seu favor ao que até agora teve má reputação - se ele ronda, curioso e tentador, tudo o que é mais proibido. Por trás do seu agir e vagar - pois ele é inquieto, e anda sem fim como num deserto - se acha a interrogação de uma curiosidade crescentemente perigosa. "Não é possível revirar todos os valores? e o Bem não seria Mal? e Deus apenas uma invenção e finura do Demônio? Seria tudo falso, afinal? E se todos somos enganados, por isso mesmo não somos também enganadores? não temos de ser também enganadores?" - tais pensamentos o conduzem e seduzem, sempre mais além, sempre mais à parte. A solidão o cerca e o abraça, sempre mais ameaçadora, asfixiante, opressiva, terrível deusa e mater saevacupidinum [selvagem mãe das paixões] - mas quem sabe hoje o que é solidão?...




